• Publicado Março 19th, 2012
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Uma substância normalmente usada para tratar diabetes poderá se tornar mais uma opção no combate ao câncer. Testes em laboratório indicam que a metformina, extraída da planta conhecida como arruda-caprária ou galega (Galega officinalis), encontrada no sul da Europa e na Ásia Ocidental, também é capaz de controlar a proliferação de tumores.

Os resultados foram apresentados na 26ª Reunião Anual da Federação das Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe), realizada na semana passada no Rio de Janeiro.

O coordenador da pesquisa, o médico José Barreto Campello Carvalheira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ressaltou a importância do desenvolvimento de tratamentos alternativos para o câncer, já que há uma tendência de aumento da incidência da doença.

Ele explicou que existe uma correlação entre obesidade e aparecimento de câncer, e há um prognóstico de que, em 2020, 20% da população brasileira sejam obesos. “Obesos têm maior incidência de câncer e tendem a morrer mais desse mal”, disse. “Isso foi proposto originalmente em 1932 e, em 2003, um estudo confirmou definitivamente essa relação.” Além disso, sabe-se que pessoas obesas têm maior probabilidade de se tornarem diabéticas.

Segundo Carvalheira, já se sabia também que diabéticos tratados com metformina têm menos chances de desenvolver câncer. “Há uma redução significativa em vários tipos de tumor, desde 10% para pulmão até 50% para próstata, por exemplo”, comentou o médico.

Dupla dinâmica

Com base nessas evidências, os pesquisadores investigaram a possibilidade de a metformina ter ação anticancerígena. Em 2008, eles iniciaram um estudo com células tumorais em laboratório (in vitro). “Fizemos três tratamentos diferentes: com metformina; com paclitaxel, uma droga antitumoral; e com as duas simultaneamente”, explicou o biólogo Guilherme Rocha, que conduziu a pesquisa em seu mestrado.

Tanto a metformina quanto o paclitaxel foram capazes de aumentar, separadamente, a atividade de uma enzima chamada AMPk. Ela é um sensor energético que induz a formação de ATP, a molécula que funciona como combustível das células, e o aumento de sua atividade inibe a ação de outra enzima, a mTOR, responsável pelo crescimento celular. Ou seja, quanto mais ativa a AMPk, menos a célula vai crescer.

Mas o resultado mais interessante veio com o tratamento simultâneo: o efeito foi o mesmo, só que em uma intensidade muito maior, o que levou não só ao controle da proliferação do câncer, como também à morte de algumas células tumorais.

“A combinação dessas duas substâncias também inibiu o ciclo celular [conjunto de processos que ocorrem em uma célula para que ela se duplique e se divida] e o efeito de apoptose, a morte programada das células”, completou Rocha.

Testes promissores

Com esses resultados, o grupo iniciou, há cerca de um ano, testes clínicos de fase 2 em pacientes com tumores de cabeça e pescoço. “Normalmente, teríamos que passar pela fase 1, mas, como essas duas drogas já são usadas há muito tempo, pudemos pular essa parte”, revelou Carvalheira.

Atualmente, há 15 voluntários participando dos testes, mas o plano é chegar a 90. “O recrutamento está lento, porque os pacientes que podem participar são os que já passaram por vários tratamentos e muitos não têm condições físicas de entrar no estudo”, observou o médico, acrescentando que os resultados preliminares são bons, mas só poderão ser confirmados no fim da pesquisa.

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